quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Príncipe e o Mendigo


Se a vida fosse uma novela, dessas que a gente assiste (ou, no meu caso, escreve), a coisa já estaria encaminhada. No fim da trama, os maus seriam punidos - alguns até com morte - e os bons se encontrariam, todos se entenderiam e dariam início a uma nova e feliz existência. Infelizmente, a vida teima em não seguir um roteiro. Nós, da grande platéia, só sabemos o que os jornais noticiam. De um lado, um menino norte-americano, filho de mãe brasileira, virou o lencinho no cabo de guerra que seus avós e seu pai travam diante do mundo todo, literalmente. Do outro lado, enfiado numa cama de hospital no interior da Bahia, está o menino cujo padrasto vingou-se da mulher, enfiando 42 agulhas no corpo do garoto de 2 anos.

Um, no Rio de Janeiro, vive cercado de tanto, mas tanto amor, que não tem quem pense nele. O outro, em Ibotirama, vive com a mãe, os cinco irmãos e o padrasto - e não teve ninguém que prestasse atenção nas agressões que seu corpo sofreu ao longo de dois meses. Numa novela, dessas que disputam a audiência ponto a ponto, os dois meninos seriam provavelmente irmãos separados no nascimento. Na vida real - se é que podemos chamar isso tudo de vida - eles nunca vão nem saber da existência um do outro. O mais pobre, talvez, nem sobreviva às agulhas.

O menino rico - deve ser rica a família, para mover com tanta gana a roda implacável da Justiça brasileira - virou alvo de uma disputa insana: os avós querem mais poder que o pai. Não sei se o pai é bacana ou pilantra, mas se fosse pilantra mesmo não estaria brigando tanto pelo moleque. Os avós, com certeza, vêem no menino uma extensão da filha morta. É justo que queiram ficar perto do neto. Mas será que a ponto de separá-lo do pai, apenas por que a filha tinha terminado o casamento? É uma discussão cabeluda, mas o que me chama mais atenção é a sensação de que, em momento algum, as duas partes se sentaram numa mesa para conversar.

Devem ter sentado, é claro, mas com posições já definidas. Delas, nenhum dos dois lados abriu mão. E o resultado é o interminável bate-boca jurídico, envolvendo até mesmo a super-poderosa Hillary Clinton. Ok, exagerei, a simplesmente poderosa Hillary. O pai tem a aura de norte-americano, o que dá a ele certo poder mítico. Os avós brasileiros são de uma família influente e bastante enfronhada nos meios do Judiciário. E nós sabemos o quanto isso pesa na hora de um juiz dar uma sentença.

Do menino baiano, o que sabemos é que a mãe só percebeu que algo estava errado quando o filho começou a vomitar e sentir dores fortes no estômago. Um raio X revelou a brutalidade. Uma criança de 2 anos, normalmente, já é pequena. Uma criança pobre, do interior do nordeste, é menor ainda. Mais frágil ainda. O que passa na cabeça de uma pessoa que, deliberadamente, submete um ser desses a tamanha tortura? Cachaça demais? Não tentem colocar a culpa na coitada da caninha.
Do baianinho quem vai cuidar, além dos médicos, é um delegado de província e um promotor, tomara Deus, bem intencionado. Não haverá roda implacável da Justiça movendo-se a favor do menino. No lugar de uma Hillary Clinton, talvez uma freirinha ou uma militante de ONG, mais ninguém. As mulheres poderosas de nossa terra - a primeira-dama, as ministras, as apresentadoras de TV que derramam lágrimas pelas criancinhas do show da TV - estão ocupadas procurando o marido, cavando uma vaguinha na presidência ou posando pra Caras.
Eu queria ser roteirista da novela dos dois meninos, só pra poder arrumar um fim bem meloso e feliz pros dois. Só pra escrever a cena em que os dois se encontrariam na rua, talvez diante de uma vitrine de doces ou, quem sabe, num play ground de uma praça abandonada. Eles se olhariam, trocariam um brinquedo, falariam de suas vidas - em sua linguagem quebrada de criança - e superariam todas as diferenças. Nos anos 60, Kadu Moliterno trocou de lugar consigo mesmo e o que era príncipe virou mendigo e vice-versa. Na minha novela, não. Nenhum deles seria príncipe, mas nenhum viraria mendigo. Sairiam pela rua, de repente fugindo com um circo, e seriam, talvez não felizes, mas crianças.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Festival de besteiras



Desta vez, não teve pra ninguém. Gilberto, o Alcaide, saiu na disparada e bateu o ranking de besteiras ditas por um político durante uma tragédia. (Ok, Lula extrapolou com a merda no discurso, mas não havia uma tragédia em andamento). Gilberto alistou-se, assim, no clube que reúne gente mais tarimbada na política, como o falecido Franco Montoro e a resistente Marta Suplicy.





Pra quem esteve em Marte na semana passada, eu explico: de segunda pra terça-feira, o céu desabou sobre São Paulo. Choveu gato, cachorro, periquito, cacatua, rinoceronte, iguana e ferret - em suma, choveu até dizer chega. Dois dias depois, a TV mostrava alguns bairros que teimavam em permanecer alagados.





E o que disse Gilberto a respeito desse dia tão caótico, mas tão, que a cidade registrou índice zero de congestionamento - simplesmente porque as pessoas não conseguiam se locomover a partir de certos pontos. "Está tudo sob controle", disse o Alcaide, revelando uma face budista desconhecida até de quem votou nele por convicção. Em seguida, Gilberto contestou os pessimistas e afirmou que a coisa não estava tão feia. O grande debate que surgiu a partir daí foi tentar entender o que o alcaide da maior cidade do país define por "caos".



Falar cretinices é um esporte muito praticado entre os políticos. Revela, além da pobreza de raciocínio, um tremendo desprezo pelo bem estar público. Exagero meu? Não. Quando Franco Montoro percorreu as áreas da cidade cobertas até o teto por água de enchente, em vez de lamentar a desgraça dos atingidos, suspirou: "Lembra Veneza". Foi muito gratificante para as vítimas da enchente saber que sua vida chegara, enfim, a níveis europeus.



Também Marta Suplicy perdeu uma luminosa oportunidade de se fingir de surda, quando questionada sobre o caos aéreo que transformava qualquer vôo numa gincana de Rollerball. À época ministra do Turismo, Marta disse que os prejudicados pelos atrasos monumentais deviam "relaxar e gozar". Trata-se de uma frasezinha que todo mundo usa de vez em quando. Na boca de uma ministra, chamada às falas sobre um problema seríssimo de sua pasta, a frase levava o maior jeito de chacota.

Recentemente, ao anunciar o plano de obras que interdita total ou parcialmente cinco pontes sobre o Rio Tietê, o governador e o prefeito estavam tranquilos: as obras não prejudicariam o trânsito de São Paulo. Limitados pela realidade concreta dos fatos, alguns repórteres insistiram e, ao Estadão, o governador deu a solução mágica: "Basta o cidadão negociar novos horários de trabalho com suas chefias". Deve fazer muito tempo que o governador não pega no pesado de verdade, das 8 às 18 com uma hora de almoço. Desconfio até que nunca tenha passado pela experiência de carregar uma marmita.

Não ter sofrido não significa que o sujeito seja um monstro insensível. Ele pode ter tido berço de ouro e compreender o quanto é ruim, por exemplo, usar o transporte público nessa cidade. Qualquer guaxinim que tenha frequentado a escola - mesmo que levado de carro particular por pápi e mami - conseguiria entender que os novos ônibus de São Paulo, cheios de degraus, são um convite ao braço quebrado. Mas, o que faz a prefeitura? Aceita esse veículo e obriga a população a fazer verdadeiros malabarismos diariamente nas ruas da cidade.

Da mesma maneira, na gestão de Erundina (de quem gosto muito), um elogiado programador visual, querido em tudo quanto é bar bacana da Vila Madalena, determinou que todos os ônibus de São Paulo tivessem as mesmas cores. O Iluminado esqueceu que uma grande maioria da população tem pouquíssima intimidade com a língua escrita - maneira tucana de dizer que são analfabetos - e o que se via nos pontos era um amontoado de gente desesperada atrás de seu ônibus, já que não conseguia ler os letreiros...

Estou fugindo do tema? Acho que não. Tudo gira em torno do mesmo ponto: o solene desprezo pelo bem coletivo, pelo interesse da população. É como se prefeitos, governadores, ministros e os que os assessoram trabalhassem não pela cidade em geral - mas contra seus não-eleitores. Eles não governam: vingam-se dos votos não recebidos. O pior é que, na hora de votar, a marujada vai lá e reelege essas figuras. Francamente, nem sei porque eu esquento a moringa.

p.s. Divertidíssimo imaginar a cara de Gilberto, o Alcaide, ao ver que os vereadores rejeitaram seu pedido de aumento salarial. Atire a primeira pedra quem nunca pediu aumento e o chefe disse 'não'...

p.s.2 Como vocês devem ter desconfiado, se chegaram até aqui, eu não estou no time dos colegas artistas que derramam-se em elogios às administrações, presentes e passadas, só porque visitaram um dos nossos no hospital. Luz na praça, que é bom... policiamento, que é fundamental... necas...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Complexo de Orfeu


Num hipotético dicionário do comportamento urbano, o verbete que me define estaria entre o A de 'ajuizado' e o C de 'cagão'. Jamais chegaria ao R de 'resistente a assaltos'. Mas quem teve algum contato com a obra e a figura do dramaturgo Mário Bortolotto sabe muito bem que ele jamais se intimidaria por um assaltante noiado. Especialmente, se esse noiado estivesse agredindo alguém indefeso. Bortolotto é do tipo que parte pra porrada, no teatro e na vida.

O assalto na madrugada de sábado, na Praça Roosevelt, que deixou Mário Bortolotto ferido por quatro disparos - e mais outros dois feridos com menor gravidade-, acabou expondo também a fragilidade de nossa classe artística. No ato público realizado na noite de domingo, lotando o bar do Espaço dos Parlapatões e a calçada em frente, muita gente ainda carregava uma expressão de choque: "Atingiram um dos nossos! Isso não pode continuar!"

É como se, no fundo, nos acreditássemos protegidos por um escudo invisível. Não. Nem nós, nem ninguém. A rigor, os tiros que feriram Bortolotto são os mesmos que atingem dezenas de pessoas diariamente em São Paulo. A falta de segurança que agora aperreia os frequentadores da Praça Roosevelt é a mesma que incomoda quem caminha tarde da noite pela Avenida Paulista ou desce do ônibus lotado em alguma rua deserta do Jardim Ângela.

Bortolotto foi ferido não por ser artista talentoso, mas por ser um cidadão - dos que pagam imposto e conta em dia - colocado em mais uma cena de violência urbana . A ingenuidade da classe artística revela-se na crença de que vamos trocar o pipoco das balas pelos aplausos a nossas performances, usando apenas o sorriso cativante e a riqueza de rimas. Fazemos nosso trabalho, atraímos nosso público, cientes de nosso papel social como artistas e, por isso, acreditamos que as feras vão se acalmar.

Somos Orfeus gagos e de lira quebrada. Infelizmente, nosso canto, sozinho, tem pouco alcance. Mas não é por isso que vamos deixar de cantar e remendar as cordas da lira, pra tentar seduzir alguma fera perdida. Não podemos esquecer que sempre dependemos "da bondade de estranhos", como já disse Blanche Dubois em "Um bonde chamado desejo".
Sem o poder público que forneça segurança, ilumine as ruas e termine o que começou (a demolição dos escombros da praça, por exemplo), pouco poderemos avançar. Mesmo que não sejamos seres dotados de imunidade especial, apesar de nosso talento, temos algo que a grande maioria da população nem sonha em ter: acesso aos meios de comunicação. Em alguns casos, temos acesso direto a quem manda na polícia militar e na guarda civil metropolitana.
Não devemos reduzir a reivindicação por mais segurança a uma campanha destinada a proteger uma casta de divinos. É a cidade que precisa de segurança, é o cidadão que precisa de proteção. Ou seja, nós todos.

O ato público ontem, capitaneado por um emocionado Hugo Possolo, teve uma santa missão: dissemos a quem quisesse ouvir que não vamos recuar, não vamos abaixar as portas e tomar nossas cervejas em silêncio, aplaudindo com estalar de dedos pra não atrair a bandidagem. Dizer"não" ao medo é fundamental pra que nossa vida e nossa arte tenham algum sentido.

No melhor dos mundos, essa onda de coragem avançaria e tomaria conta da cidade - passaria pelos bairros centrais, avançaria pelos arredores da cidade e chegaria aos rincões distantes, sempre conseguindo afastar o perigo e a maldade. Não custa sonhar e é disso que vivemos, nós que escrevemos, atuamos e caímos no meio do picadeiro pra divertir a galera. Vivemos do sonho de construir um mundo melhor.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Gastronomia & Gincana


Desde o século 16, quando François Rabelais animou o Renascimento com as aventuras de Gargantua e Pantagruel, colocar alimentação farta, sexo e prazer no mesmo balaio tornou-se comum. O cinema não deixou passar - e quantos jantares fantásticos são comparados hoje em dia à "Festa de Babette", numa lembrança do delicioso filme de 1987, com Stephane Audran dirigida por Gabriel Axel... Quem não saiu do cinema com água na boca, depois de ver aqueles áridos escandinavos virando os olhinhos de prazer carnal a cada prato servido pela imigrante francesa?

A ligação entre sexo, gastronomia e prazer sempre foi tão intrínseca que até hoje soa uma ousadia o roteiro de "A Comilança", dirigido por Marco Ferreri, em 1973. Os anos 70 foram tempos em que ainda havia radicalismo de ideias no cinema europeu. Daí, a força do filme, que mostra um grupo de amigos (Marcelo Mastroianni, Michel Picolli, Ugo Tgnazzi, Phillipe Noiret e Andrea Ferreol, entre eles - um timaço) reunidos numa casa de campo para comer até morrer. Era o que faltava para simbolizar o ciclo da vida: a morte. Sexo, comida, prazer e morte. Mais vida que isso...

De certa maneira, eu esperava que "Julie & Julia" me desse um pouco do prazer que Babette causara, ainda no século 20 - obviamente sem o radicalismo suicida da Comilança. A ideia anima: Julie, uma candidata a escritora, em 2002, cria um blog prometendo preparar no prazo de um ano as 500 e tantas receitas de um livro clássico da culinária nos Estados Unidos, escrito nos anos 50 por Julia Child. O filme começa bem, com Meryl Streep se impondo desde a primeira cena, como a caipirona Julia , deslumbrada com Paris e entediada com a vida de dona de casa sem filhos. A mesma atriz que deu um banho de classe e elegância em "O Diabo veste Prada", agora rouba todas as cenas como a expansiva Julia - e mesmo sem contracenar, rouba as cenas da jovem Julie, vivida por Amy Adams (uma impressionante versão jovem de Cinthia Nixon, a Miranda de "Sex and the City").

Julie é simpática e contemporânea, mas sua trajetória como personagem é entediante. Onde ela arruma tempo para trabalhar longe de casa, fazer compras no mercado, cozinhar um prato difícil por dia e, ainda, tentar dar conta do maridão jovem, bonito, atencioso... Ter um piti porque a gelatina desandou, francamente, é pouco eletrizante pra um filme de duas horas. E o chororô da crise... please...

Apesar dos defeitinhos, "Julie & Julia" é um filme delicioso de ver: o grupo dos anos 50 é o mais divertido, até nas pequenas participações (Jane Lynch, a analista de "Two and half men", faz a irmã de Meryl, ótima). No começo, a gente acha que devia ter levado um estoque de barrinhas de cereal pro cinema, porque aquelas receitas vão atiçar o apetite. Bobagem. Tanto Julie quanto Julia acabam se dedicando com afinco à tarefa de aprender aquelas receitas porque se impuseram um desafio - e não há nada mais americano do que vencer um desafio.
Falta o deliciar-se, o lambuzar-se mesmo. Na hora em que servem as refeições, falta aos comensais aquela expressão de verdadeiro prazer que temos diante de um prato delicioso. Em tempo: os atores dizem que sentem prazer, comem fazendo uhms e ahms, mas o prazer carnal, visceral, o olho brilhando de gula e luxúria, ah, isso não tem, não. O grupo dos anos 50 ainda se entusiasma um pouco mais, talvez porque saboreie as receitas em Paris - mas os contemporâneos vivem em Nova York e dão a impressão de que trocariam aquele pato desossado por um hambúrguer com fritas, sem dor na consciência.

Graças ao roteiro - que tem ótimos momentos - há no filme os ecos de um outro sucesso dos anos 1980, "Nunca te vi, sempre te amei": as protagonistas nunca se encontram e a única cena em que aparecem juntas é a da foto acima. Essa reversão de expectativa pode frustrar alguns, mas não deixa de ser curioso.
A vantagem é que você pode ver o filme na sessão das 10, sem correr o risco de sair do cinema desesperado pra entrar no primeiro restaurante francês... fechado a essa hora da noite. É um filme sobre jantares requintados, que não desperta o apetite. Perfeito pra quem tá de dieta. Agora só falta mesmo aparecer a versão brasileira, com Fernanda Montenegro fazendo a Ofélia e Marília Pêra, a Palmirinha.

sábado, 28 de novembro de 2009

Qual é o pente que te penteia?



Nada é por acaso, a não ser o que nos pega de surpresa. Depois de tanto resvalar no tema do racismo que nos rodeia, acabei na plateia da peça "Ensaio sobre Carolina", que encerra carreira na próxima sexta-feira, dia 4/12, no Teatro Imprensa. Ali, junto aos meus sete companheiros de platéia - tão pouca gente pra um espetáculo apresentado por seis pessoas - tive a nítida noção que estava assistindo a uma das melhores peças do ano.

"Ensaio" é um trabalho de pesquisa teatral feito sobre o livro "Quarto de despejo", um dos maiores sucessos editoriais do Brasil nos anos 60. Sua autora era uma catadora de papel, favelada, mãe de alguns filhos e com uma sensibilidade atordoante: Carolina Maria de Jesus. O ingresso custa só 10 reais e dá direito não só a um espetáculo vibrante, mas também a um gole de cachaça e a muita, mas muita reflexão.

Os jovens atores negros, guiados pelo diretor José Fernando Azevedo, mergulharam fundo. Em cena, o que se vê é, ao mesmo tempo, é a vida de uma mulher negra no fim dos anos 50 e o que esses atores, com toda certeza do mundo, já sentiram na própria pele. É um documento e, ao mesmo tempo, é atual. É histórico e é contemporâneo, a tal ponto que em nenhum momento sente-se falta do famigerado didatismo que tantas vezes contamina peças adaptadas de livros. Gal, Sidney, Lucélia e seus colegas tomaram conta do texto, apossaram-se de sua narrativa - e com isso seduzem a platéia.

Não é uma peça sobre racismo, denúncia, nem paira no ar um clima de vingança contra os branquelos da platéia. É um espetáculo sobre a dor que o racismo causa, sobre as feridas fundas que deixa em quem sofre ataques também de seus 'iguais'. Há até ingenuidade no modo como Carolina vivia seus problemas. Sem lei Afonso Arinos nem conceitos politicamente corretos (e hipócritas), ela se valia da própria sensibilidade para enfrentar os ataques. Talvez seja isso que deu à montagem a mesma contundência do livro: os atores também retrabalham as próprias experiências e misturaram às da autora, que morreu em 1977, aos 63 anos, depois de ver seu livro traduzido em 13 idiomas.

Há momentos delicados - quando Carolina sai comprando exemplares da revista O Cruzeiro, a primeira a falar dela e seus diários. E há momentos que travam a garganta - quando a mãe rege a sinfonia dos filhos famintos. Ou quando ela, tratada como estrela por um diretor de jornal, emociona-se ao realizar um antigo sonho: almoça arroz, feijão, bife e salada. E há outros momentos que nos assustam, como quando todos atacam uma atriz, usando todas as piadas infames e gracinhas racistas que se espalha por aí. Sobram ataques para o sistema, que queria transformar Carolina numa celebridade a contragosto, e fica implícito - até pela pouca presença de público - que muita coisa continua igual. À exceção de Sidney Santiago, que viveu o esquizofrênico pobre de "Caminho das Índias" e também arrebentou como o motoboy do filme "Os doze trabalhos", o restante do ótimo elenco não aparece na Caras. Portanto...

Com perucas loiras mal ajambradas na cabeça, números musicais que parodiam os filmes de Hollywood de maneira cortante - uma explicitamente falsa doris day dança pelo palco abraçada a um vestido de primeira comunhão, enquanto canta as agruras de não ter comida pra dar aos filhos... - o elenco inteiro dá um show.

Interessante é que a miséria do tempo de Carolina era dolorida, como a miséria de hoje, mas não tinha a marca da violência. Ainda não se falava de criminalidade como sinônimo de miséria. E isso espanta: a mãe quer comprar sapatos pros filhos para que eles possam ir à escola e ser alguém - e não para que tentem escapar das quadrilhas e das polícias. A peça termina de maneira quase brusca, porque - no fim das contas - aquela história não termina nunca.

Tentem não perder a peça. É um espetáculo de primeira grandeza em meio a tantos falsos brilhos de nossos palcos.

p.s. Confesso que não sabia, mas tá na Vejinha: Gilberto, o Alcaide, tá fechando os albergues de miseráveis do centro. Quer que os mendigos aceitem dormir nos cafundós da periferia. Eles não aceitam e acabaram se espalhando pelos bairros de gente bem. Pelo menos agora são notados. Será que foi a maneira que o Alcaide encontrou de despertar a consciência social dos frequentadores da Oscar Freire? Bem bolado!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

As mortes de Celso Pitta



A segunda morte do ex-prefeito Celso Pitta, noticiada no sábado, pegou muita gente de surpresa. Poucos sabiam que ele estava doente e a maioria já dava o homem por morto desde que ele saiu da prefeitura e só se meteu em confusão - seja com a ex-mulher, seja com a Polícia Federal.
A terceira morte de Celso Pitta ocorreu algumas horas depois do seu falecimento físico. Ao velório e ao enterro, realizados debaixo de uma chuva que os jornais de antigamente classificariam de torrencial, compareceram umas 100 pessoas - no enterro, mesmo, eram umas 30 almas pingadas, contando a mãe de 89 anos e os filhos, que chegaram poucos minutos antes do caixão baixar à sepultura.

No domingo, os jornais publicavam a notícia embaraçosa e forçavam a repercussão junto a outros prefeitos paulistanos. Gilberto, o Alcaide, soltou uma nota padrão, só não totalmente formal porque remetia à morte do próprio pai, ocorrida há algum tempo. Marta Suplicy, convenhamos, deve ter discussões mais acaloradas com seu cabeleireiro sobre cor de tintura do que ditando a sua opinião sobre a morte de Pitta. Maluf, em viagem, mandou um telegrama.

Não houve surpresa nessa melancólica saída de cena. Pitta nunca teve uma tradição política: chegou à prefeitura guindado pelo padrinho Maluf, com quem se desentenderia depois. Não criou vínculos com a cidade. E nem com os mais próximos: contam as comadres que sua relação com os filhos era, no mínimo, muito complicada. Com Nicéia, nem se fala. Pra mim, a surpresa mesmo veio da reação de algumas ONGs de movimentos negros , que atribuíram o baixo ibope do enterro ao preconceito racial.

Eles dizem que Pitta foi vitimado pelo preconceito durante toda sua administração. Eu cochilei e perdi algum pedaço do filme? Até onde minha loirice consegue compreender, Pitta entrou pra história como titular de uma prefeitura corrupta, corroída pela roubalheira de precatórios e verbas desviadas. Não foi o único a ser acusado, é verdade, mas pelo jeito foi um dos que deixou rastro. Havia, sim, piadas racistas em torno de seu nome - mas não creio que este tenha sido o único combustível das críticas: o que pegava mesmo era a corrupção desenfreada.

Não foi só isso. Celso Pitta, até onde eu saiba, não deixou marcas na cidade. Era desprovido de carisma. Até a arrogante Marta Suplicy ("Ela parece uma eterna aluna de vestido rendado do Des Oiseaux", dizia uma colega do Estadão) tem seu fã-clube. Há quem vá com a cara de Gilberto, o Alcaide, e até o governador asperge seu charme sobre alguns corações femininos. Pitta - repito, até onde eu saiba - não deixou muitas lembranças.

Ele foi humilhado ao ser preso de pijama em rede nacional, da mesma forma que Marta foi achincalhada quando um estudante da São Francisco atirou-lhe uma galinha em cima (e só faltou ser ovacionado pela imprensa tucana) e Luísa Erundina era ridicularizada por ser solteira, não ter corpinho de miss e falar com sotaque nordestino.

Confundir isso com racismo, sei não. Será que é mesmo motivo de orgulho saber que um negro chegou ao poder construindo uma imagem de político corrupto? Minimizar essas acusações seria a solução ideal? Um negro corrupto é menos corrupto que um branco? Será que até pra isso vai ter cota?

O que todos esses políticos - sejamos pró ou contra - experimentaram em comum foi a campanha da maioria que se julga branca, rica, hétero e ariana. É contra isso que devemos lutar - mas sem jogar para debaixo do tapete os erros de nossos candidatos. O erro dos 'nossos' não é menos grave que o erro 'dos outros'.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O número 2


Pode ser alguma barreira minha. Talvez eu precisasse discutir o tema com minha analista. Ou continuar fazendo o que sempre faço: tiro o som da TV quando entram aquelas propagandas chatérrimas de Activia e outros produtos que ajudam a pessoa a fazer o bom e velho cocô. Aquele bando de mulheres reunidas em torno da Patrícia Travassos ou de outra atriz, comentando que agora sim são mulheres realizadas porque conseguem dar vazão ao seu metabolismo... sei lá, eu acho embaraçoso.

Não sou contra falar do assunto - já fiz peça sobre isso, aliás um tremendo sucesso. Mas uma coisa é fazer no teatro, a pessoa vai até lá, leu a sinopse antes, é um outro ritual. Se for um pateta que nem eu, que costuma almoçar ou jantar diante da TV (é errado, eu sei, mas oras bolas), é bem chato ver neguinho discutindo hábitos intestinais em público.

Também acho chato aquela propagada de ração pra cachorro em que uma menininha fofa aparece em close segurando uma pazinha lotada de cocô canino. Pô, não tem limite pro exibicionismo? Nem o cachorro escapa.

Essas coisas a gente fala com quem tem intimidade ou com o médico. Mas, pensando bem, nossos hábitos sexuais também não são da conta de ninguém - e hoje em dia o que mais se vê e lê nas revistas é com quem A dormiu, quem B comeu ou pra quem C deu. Já li entrevistas detalhadas de orgamos, primeiras vezes, práticas sexuais inusitadas e outras banalidades de gente que nem lembro mais quem era. Ou seja, coitada da moça - acho que era uma moça: se abriu feito um para-quedas e sumiu na lata de lixo da história.

O problema dessas propagandas - que atingem muita gente, já que prisão de ventre é praticamente uma epidemia - é que são repetitivas, sexistas e simplistas. Elas sempre têm uma pinta de científicas e se dirigem a mulheres, como se não houvesse homens não padeçam do mesmo mal. São simplistas porque atribuem a um pote de iogurte o dom de abrir os caminhos (num sentido figurado) de qualquer pessoa.
Numa das propagandas, uma executiva passa o dia correndo pro banheiro e saindo com cara de quem não fez nada. Até que a secretária eficiente oferece um remedinho - e a mulher, pelo visto, pinta a porcelana. Imaginem essa atriz saindo por aí. Entrando no banheiro de um restaurante. Ou usando o toalete na casa de um colega de trabalho. Todo mundo vai pensar a mesma coisa, não vai?
Deve ser tão constrangedor quanto a velhinha que fazia propaganda de fraldão pra adulto ou da senhorinha que falava do Corega. Ah, teve também o Orlando Moraes pagando mico de seboso, com a Glória Pires fazendo anúncio de xampu anti-caspa. É tudo natureza, eu sei, eu sei. Mas só queria dividir essa dúvida que sempre me bate quando vejo a Patrícia Travassos falando do Activia. Tanto que nem tenho uma opinião formada. Eu só não gosto dessas propagandas, mais nada.